30 de dezembro de 2011

De quando eu era gorda: Espezinhada

Parte 1 

II

Aquele grupo de pessoas feias acabava formando uma legião de criaturas bestiais e desprezadas pela pequena e restrita matilha de beldades colegiais.
Eu fazia parte do grupo dos feios. E era nele que buscava forças para seguir em frente. Ir ao colégio? Um suplício. Sabia que o dia me traria hematomas, humilhações, perseguição e vergonha, muita vergonha.
E era assim, nesse misto de medo e vexame, em que viviam todos aqueles que faziam parte da “Tropa do Terror”.

Acontece que entre aquele grupo das beldades, havia alguém por quem eu me interessara desde os primeiros anos no colégio. Seu nome era Mário e acreditem, apesar dos seus dezesseis anos, talvez dezessete, ele já tinha quase dois metros de altura e seu corpo já dava mostras do que estava por vir na sua fase adulta e, meu Deus, tremia só de imaginar.
        Eu estava sempre pelos cantos, adimirando-o de longe, enquanto ele conversava com as meninas de sua espécie. Todas tão bonitas e finas (em todos os sentidos), e eu ali, imersa em minha obesidade, mas ainda assim devorando um sonho, ou quem sabe um enroladinho, buscando sempre um sabor diferente, talvez para compensar todo aquele dissabor com que a vida teimava em me proporcionar.
        As outras componentes da “Tropa do Terror” me aconselhavam, com a vasta experiência que adquiriram com anos de “Malhação” e “Rebeldes”, os caminhos que eu deveria seguir para chegar ao coração do Mário. Detalhe: todos levavam a um emagrecimento urgente.
        Foram tantos conselhos e incentivos das minhas colegas de feiúra que no último dia de aula do 3º ano, eu resolvi abordar o Mário. Aguardei um momento em que ele saiu da sala e fui atrás. Chamei seu nome com um fiozinho de voz, ao que ele se voltou sem mesmo parar de andar e perguntou em seguida:
 - Você me chamou?
A frieza estava estampada em seus olhos azuis.
- Sim, chamei.
Eu estava vermelha de vergonha e me perguntava o porquê de eu ter feito aquilo. O que diria agora?
- Sim, o que você quer? Tou apertado, preciso mijar.
Porco, porco, porco. Pensei e me apaixonei ainda mais. Quem não ama um homem grosso e mal educado?
- Bem, é que eu pensei se não haveria a possiblidade de nós, quem sabe um dia, sairmos juntos, para conversar?
O finalzinho da frase saiu baixinha e tremida, quase sumindo.
- Não tenho nada para conversar com você.
Facada no peito.
- É que, eu pensei que talvez você quisesse tomar um sorvete ou ir ao cinema para vermos um film...
Ele me interrompeu e falou a coisa mais cruel que um homem pode dizer para uma mulher:
- Monique você é gorda, porque tá me convidando para comer? Tá querendo me devorar? Tá me achando com cara de macarronada? Vai fazer um regime e vê se some! 
Cada palavra dita por ele surtiu o efeito de tiros em meu corpo flácido. Senti um calor no rosto, um nó na garganta e o que veio em seguida, me colocou numa posição de expectadora. Eu não coordenava minhas ações.
O primeiro murro desferido por mim atingiu o queixo. Mario caiu no chão incrédulo e tentou falar alguma coisa:
- Sua p...
Não deixei ele terminar. Comecei uma sessão de chutes e murros enquanto ele gritava e se contorcia. Eu não via ninguém, apenas ele, o objeto do meu amor-ódio que agora recebia aquilo o que eu nunca imaginei dar: Uma surra homérica na frente de todos aqueles que estavam em suas salas e foram atraídos pelos gritos desesperadores do garoto. Bati nele pelo que pode ter sido uns dois minutos mas que, para mim, duraram uma eternidade. Só estaquei quando ouvi um grito estridente:
- Larga ele sua vaca gorda!

Continua...



Monique Lamert

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