27 de outubro de 2011

Crônica: Sabão de coco

Por Gabriel Matos
E ela varria e varria toda a sujeira para fora da sua casa. Lavava e lavava numa compulsiva repetição. Espanava e sacudia, numa insistência febril. Fazia dessa forma, com a tênue esperança de que tudo aquilo que havia vivido na noite anterior pudesse sair de sua mente, assim como a sujeira varrida saía de sua casa ou que descesse ralo adentro juntamente com a espuma das roupas lavadas com o sabão de coco.
Mas era tudo em vão. O corpo ainda doía, as marcas se encontravam ali, latentes, como sujeira de lama em roupa branca. E aquelas, ao contrário destas, não saíam com o milagroso sabão.
Mas limpar a fazia se sentir melhor.
Sempre fora uma moça recatada, criada por governantas e estudando em bons colégios. Mas por conta de  um louco e inebriante amor, resolvera ir de encontro àqueles com os quais sempre pôde contar: seus pais.
Pagou caro por sua teimosia: o primeiro tapa que ganhou do seu homem veio depois que deixou queimar o feijão, que ela teve que descobrir a duras penas como fazer, pois nunca havia feito nenhuma atividade do lar. O segundo, quente e ardido, foi em troca de uma camisa queimada com o ferro de passar. Depois do terceiro, ela parou de contar. Apanhava por qualquer coisa. Um suspiro mais profundo, uma tapona para não suspirar. Um muxoxo na cozinha, uns murros para não resmungar. Um gemido durante o amor (que ainda era muito bom) rendia um beliscão na barriga, pois mulher descente não gemia. Com o tempo, seus brios foram sendo afetados. Não fora criada para tanto sofrimento. Mas agora, nada mais havia de ser feito. Já não restava família. Fora deserdada por seus pais que reprovariam seu casamento pelo resto da vida. Estava por si só. Precisava superar e para isso ela limpava e limpava, numa repetição doentia.
E assim passaram-se os dias e as noites. Até que num entardecer, acontecera tudo novamente. Acusações infundadas, gritos, pancadas, defesas, lágrimas. Mais uma vez, ela se sentia suja, manchada e violada por aquele que um dia jurara amar eternamente.
E ainda amava.
Porém, na manhã que sucedeu aquela noite, a superação em forma de esfregadas não veio. Por isso ela saiu em silêncio de casa. Fechou a porta, soltou os cabelos e sentiu o vento frio e implacável daquele amanhecer de inverno. Deu um último suspiro, atravessou a rua e com os olhos fechados se atirou em frente ao bonde que por ali passava.
Naquela manhã não houve superação: o sabão de coco havia acabado.

Gabriel Matos

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