19 de outubro de 2011

Crônica: Do forno e fogão

A partir de hoje, o blog Burako Negro, trará crônicas e textos de alguns amigos. Começaremos com "Do forno e fogão" escrita por meu amigo Guilherme Guimarães, e que me deixou impressionado. Espero que curtam:

"Uma mulher tem o marido assassinado e sozinha, precisa criar seus cinco filhos. Sem emprego, nem dinheiro e sem o amor de sua vida, ela parte para enfrentar as dores e apertos que lhe aguardavam. Voltou a estudar,  pois havia largado a escola na 4º série por conta da sua primeira gravidez, entrou no supletivo a noite, fazendo bicos de faxineira durante o dia e assim, concluiu o ensino básico. Seus filhos agora criados, encontravam-se encaminhados na vida. Mas ela, incansável, resolve ir mais além.
Para tanto, tenta passar em um concurso público, desejo que a muito tempo acalenta. Com a mesma determinação que lhe move, consegue ser bem sucedida, passando justamente naquele que mais lhe aprazia: cozinheira em um presídio de segurança máxima.
Em seu primeiro dia de trabalho, exultante e ansiosa, é logo encarregada de fazer o almoço dos prisioneiros e para tanto, prepara um panelaço de feijão ao que confere uma enorme atenção na feitura...
Após o almoço ser servido, senta-se na cadeira e descansa com um sorriso no rosto. Dali não sai, imóvel, pois a partir de agora ela estava feliz.
 Algumas horas mais tarde, ouve-se um grande burburinho: correria e pânico generalizado, ambulâncias chegam em números incontáveis e médicos com suas auxiliares trombam-se pelos corredores fétidos do presídio. Pouco podia ser feito, dez mil presos jaziam mortos em suas celas.
A causa? Envenenamento.
A mulher continua sentada, em um transe quase transcendental, alheia aos gritos de horror e desespero, aos corpos que se contorcem enquanto a vida lhes escapava das carnes.
Em sua mente se vê aclamada pelas ruas, desfilando em carro aberto sob a ovação da multidão, a gratidão dos políticos que fazem fila para cumprimentá-la por ter resolvido parte do problema das lotações exageradas nas cadeias, que grande heroína ela havia se tornado...
E desse transe ela não acorda mais. Continua ali, sentada, olhando para o nada, enquanto à realidade jaz a sua frente.
Aqueles que a separaram de seu amor sucumbiram à sua ira e agora ela podia partir."


   Texto: Guilherme Guimarães
    Foto: Alexandre Maximovitch

Gabriel Matos

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